terça-feira, agosto 22, 2006

Vontade de ir além

Chovia muito. Não queria aparecer, mas foi. Viu alguns vultos naquela sala escura. O chão era de metal, prateado, os seus pés passavam pelas frestas onde mal conseguia se equilibrar.

Pegou um trem. As pessoas eram só passos. Por um longo tempo a procurou. A menina dos seus sonhos. Tudo continuou balançando. Parou. A vontade de ir além doía. Doía nas mãos.

Isso é um costume que não consegue se livrar. Assinou assim o nome dela, pra se esquecer de vez.

sexta-feira, julho 21, 2006

Conselho do Vento

Por andar triste a pensar
com o que poderia
o nome dela rimar
entre janelas tempo, o ar
sábios continuam a soprar:
"O nome precisa ser
sim colocado em ímpar lugar"

Mas lhe mantém surdo o pesar
do seu infortuno passado chorado:
nunca soube como se deixar levar.

segunda-feira, junho 12, 2006

Tempestades

vinho logo acaba e
andar pela chuva nos cabe
adormecer na areia ou
em teus braços não
faz diferença
voltar pra casa com
o meu guarda-chuva já sei
esperar essa água
toda evaporar
do que me sempre sobra
de bom é só o sonhar.



-12.06.2006-

quarta-feira, maio 10, 2006

E... Corta!

Mas che barbaridade de tarde enjoada.

Pra minha sorte, Elisa está ao meu lado sem o moleque.

Fico meio desajeitado com a maneira que ela me trata às vezes, me faz sentir um piá quando me convida pra tomar uma bebida e, sabendo da minha situação, me olha com aquele jeito de patroa quando tá pagando a conta.

A conheci na biblioteca, ela lia um livro sobre plantas enquanto eu fingia procurar um dicionário de inglês.

Agora, trinta e nove dias depois, estamos indo àquele bar que costumávamos ir aos sábados...

Hoje é sexta-feira!

Essa mudança na nossa recente rotina provavelmente aconteceu por causa da Naná. A conheci antes de Elisa, numa dessas festas que as pessoas deixam de comer camarão em casa só pra ver o que e quem estaria lá. Naná me beijou e não quis meu número.

Sim... como todo homem que se preste, eu tomei o caminho mais fácil: Elisa adora me controlar. E aqui, sentado na frente da Elisa numa sexta-feira ao invés de um sábado, uma idéia bonita de Naná soprou entre meus olhos e a cabeça morena dela. Naná me faz evaporar na direção da estrela mais distante quando toca minhas costas com seus longos dedos finos e também me faz sucumbir ao lugar mais escuro do seu corpo quando beija segurando-me pelos cabelos...

- Vamos?
- Sim... sim, vamos. Mas eu pago a conta hoje.

Elisa pareceu surpresa e não recusou a oferta. Levanto-me e... lá está Naná. Alva e brilhante, encostada na porta, me olhando e dando forças para prosseguir com a sua pequena idéia bonita mas, a cada mesa que contorno em direção ao caixa, essa força se esvaece com a visão que tenho das sedosas madeixas de Elisa, ondulando junto às suas ancas. Além delas, já até ganhei a confiança do guri... e isso me custou várias tardes fingindo ser um pônei na casa da mãe da Elisa.

Cristo! Tenho que ser homem!

- São 18 reais.

Tenho que quebrar o encanto. Passo a nota de 20.

- Seu troco.

A voz do senhor sôou como uma dádiva, e até Naná não pode conter sua emoção. Procuro o rosto de Elisa e ela, que já absorveu a imagem, fala antes que eu abrisse meus lábios:

- Tenho que ir pra casa, ajudar o João Pedro a fazer o tema de Ciências.

Ela me dá um último beijo na testa e sai leve pela porta.

Naná me olha e eu pego suas mãos para beijar. Ela sorri seu sorriso de princesa e me leva ao seu lugar, transformando-me em rei ao me fazer perceber que, quando estamos a sós, eu apenas a faço sentir um pouco mais velha, como toda mulher feita como ela deve quando está prestes a fazer um jovem homem como eu ficar um pouco mais sábio.

segunda-feira, abril 10, 2006

Tarde Cheia

Ela estava com ele,
finalmente apenas com ele.
Seu coração estava batendo leve,
como se uma nuvem de suspiros tivesse
pairado
sobre seu peito.
Cada movimento dos braços finos
de seu amado
era calculado pelos seus olhos,
onde tentava
julgar
o que ele estaria pensando
ao envolvê-la ou
deixá-la
na poltrona aconchegante
do cinema.
O cheiro dele a preenchia ternamente
com um profundo
sentimento que a fazia
inspirar devagar toda
vez
que ele a espiava
com o canto do olho.
Sorrisos.
O seu nariz procurava o dele, e
ela imaginava
se ele gostaria de um
beijinho de esquimó.
Disseram que nunca haviam
percebido
uma relação
tão
meiga
entre
dois amigos...
Sim.
"Apenas dois amigos",
ele disse.
E como Alice dispertando
do seu
sonho,
a parte sobre os
olhos dela
começou a saltar.
Seu maior consolo foi o
pensamento de que
aquela
não era mais uma
das suas
tardes vazias.



-02.01.2006-

sexta-feira, abril 07, 2006

Aline e Vampiro

Aline...
Aprisionada por um Vampiro!
Vampiros com seus sorrisos em sangue
facilmente enfeitiçam a mente da
fascinante Aline.
Eles a obrigam mastigar
seus próprios lábios,
fazendo ela sentir o gosto de ferro entre
seus próprios dentes.
Delicioso!
Como os dentes de Vampiros no
seu alvo pescoço à meia-noite.
Ela se tornou um deles, afinal.
Tecidos empretecidos moldando suas curvas,
espantando todo homem de bem.
Pensa em como seduzir Vampiro,
dando reviravoltas com suas pupilas infinitas e
demoniacamente lustrando o lábio de cima.
Vampiro dirá:
- "Eu não gosto de você, Aline".



-28.03.2006-

O Jogo #2

Dama de Espadas luta pelo que deseja.
Dama de Paus não precisa se empenhar.
Dama de Ouros já tem o que precisa.
Dama de Copas chora pelo que foi.

Valete de Espadas corta o coração de cada uma.
Valete de Espadas não sabe o que faz.
Valete de Espadas parece querer algo mais.
Valete de Espadas, hoje, descançará em paz.



-25.01.2006-