sábado, abril 14, 2007

Se Deita

Durante esse espaço
(maior que o tempo!)
que espero pra te rever,
minha esperança travada,
de novo na porta do trem,
vai relutar em não
parecer tristonha quando
conseguir tocar na tua mão.

O sol que nós todos vemos
(sempre o mesmo sol)
já é deitado a essa hora.
Agora pela janela eu sei que
toda vez que ele o faz,
a divisão dele, por nós dois,
é assim ó:

Tu o tens todo
para si
e dois ele é sempre
para mim.

sábado, março 31, 2007

Um livro

Quantas vezes eu vou precisar me sentir assim
para poder compreender?
Muitas vezes penso que de tudo eu já sei
um pouco
mas quando me pego assim, desse jeito,
começo a pensar
que no fundo
eu estou errada.

A solidão é uma vagabunda de luxo,
ela se instala no peito de quem
tem cacife pra sustentá-la.
Apenas as pessoas que insistem
em coisas sem luz
conseguem se deixar levar assim,
desse jeito,
e nem tentam escapar por qualquer
porta que lhes é oferecida.

Muitas teorias começam a brotar,
muitas delas são ótimas,
me fariam seguir em frente e agüentar
todo sofrimento e alegria
que por ventura podessem acontecer.
Mas eu continuo a sonhar
e nem mesmo o pior sonho
parece mais a isso tudo aliviar.

E mais um texto sobre solidão
está sendo escrito por alguém, nesse
mundo que já não tem mais solução.
Sempre é bom pensar que algo está
mudando:
Afinal, isso é apenas um texto, e não
mais um livro
que poderia a mais alguém salvar (ou não).

sexta-feira, março 30, 2007

Fazenda

Uma vez eu pisei num sapo.
Que susto!

quarta-feira, março 28, 2007

Texto Romântico (parte 2)


Ela queria ter sorte naquela noite. Pulinho e pulinho com blusa rodada e coberta de pérolas! Como ela ficou bonita... colocou um perfume bem cherôso e arrumou o cabelo como não fazia há meses, pois o passeio tinha que dar certo: a mocinha queria arranjar um namorado. Moreno, alto e inteligente, pois ela era bonita, alta e inteligente.

Ela chegou na festa muito esperançosa, sempre quis ir a um lugar como aquele com suas amigas. Os antigos namorados estavam quase todos lá e ela nem ficou deprimida, se achando um espantalho, como sempre acontecia... por que naquela noite ela estava com esperanças. Bem humorada, um amor de menina. Ela merecia o melhor.

Aí um moreno lindo, com um nome lindo como o dela (e que aparentava ser inteligente o suficiente) se aproximou sob um céu estrelado e começou a agir como todos os meninos agem quando se apaixonam: implicava com o cabelo, com o sapato e até com o som dos “ês” que ela pronunciava - “não é 'iscada', é 'escada' que se fala.” A convidou para uma dança e eles se beijaram em meio a uma massa delirante de calor.

Como se deram bem! Finalmente ela tinha achado um mocinho que tinha convicção do que queria da vida - “afinal, não é todo dia que me pedem o telefone.”

Realmente ele tinha muita convicção do que queria:
- Vamos estreiar a minha kingsize bed... babe?
- Mas eu sou uma moça de respeito!
- Vamos tomar café da manhã com biscoitos e geléia de morango.
- Não posso.
- Então volta pra casa com tua amiga, ela tá precisando de ti. Eu entendo, pode ir.

Ela foi, então, embora. Guardou o papelzinho com o nome e telefone que ele dera a ela com o maior carinho do mundo e, até hoje, está esperando ele se lembrar.



(Janeiro de 2007)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Sobre estar acordada...

Fé–
Estou até acreditando em Santo, coisa que há tempos eu não fazia.

Identidade–
A estrela que ele marcou em mim ainda está sobre meu ombro esquerdo, leve.

Impressão–
No ar, em que eu nunca voei, perco minhas vistas onde agora há brilho.

Memória–
Frases tão comuns que reduziram-no ao pó do que os outros são agora para mim.

Desejo–
Eu não quero que sumas, eu quero que fiques e que sopres bondade em meu peito.

Atitude–
Segura eu mal seguro a ti. Tênis velhos me fazem sonhar que és persistente.

Temor–
O maior medo de todos é reparar que meus suspiros não são profundos como outrora.


... retira o excesso de esperança.

domingo, fevereiro 11, 2007

Tempo


A tarde estava muito quente.
Deitada, sentiu uma das gotas do seu suor escorrendo da parte de trás do joelho esquerdo para baixo, enquanto assistia pela quarta vez aquele filme na televisão. Ela gosta de rever os filmes que adora. O sofá já estava úmido. Ela odeia o verão.
Muito bem.
Ela foi à varanda e acaba de sentir no seu antebraço esquerdo o primeiro pingo da tempestade que, para alívio do seu calor, está se formando e ela continua, mesmo assim e também porque gosta de se molhar, sentada naquela cadeira de plástico tentando arranjar um meio real de se aproximar de quem ela tanto deseja.
Mas ela é covarde.
Ao invés de apenas dar fim nisso tudo e ir encontrá-lo, ela continua gastando os seus segundos o procurando nas mínimas coisas que vê, escuta, sente... enfim.
Problemas de sonhadores.
Agora mesmo está tocando uma música de uma bandinha que ambos gostam. A rádio é a favorita dela mesmo antes de conhecer aquele merda. Pra completar, ela encara isso como um dos sinais cabalísticos do destino. Tola.
Ela pára e sente a música.
Sente como se fosse as mãos dele encostando em sua face e ombros.
Se arrepia.
Depois, olha para o céu e vê no cinza das nuvens um dos versos que, segundo somente ela, foi inspirado no que eles viveram naquela terça-feira. Vê o vento chicoteando as ervinhas do campo ao lado da sua casa, um terreno vazio. Define naquele momento que quando a chuva começar, ela vai sair andando pelo asfalto à procura do amor da sua vida esperando, ironicamente, que ele esteja com
um guarda-chuva e
uma cartela de Benegripe.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Estrilo

– Tenho que deixar a minha filha com a Senhora.

A jovem mãe faria uma grande viagem. Para onde, ninguém jamais saberia, mas o fato é que ela estava prestes a deixar sua menininha nos braços daquela Senhora que tinha rosto magro e cabelos negros como o vestido de muitos panos que estava usando. A criança não tinha três meses e, com aquela touquinha branca, parecia ser a pessoa mais feliz com a situação. Fitando-a, a Senhora sussurou:

– Claro.

Seu sorriso foi mórbido. As duas mulheres começaram a andar em direção a casa e pararam embaixo de uma parreira, para combinar. Ela entregou a menina, sem vontade, e a Senhora mais uma vez deu um dos seus sorrisos, agora com a menininha nos braços.

– Muito bem – disse a jovem mãe – agora a Senhora já pode me mostrar quem você é... na verdade.

Uma nuvem de pó brotou do chão, circundando com tufos de ar aquela estranha Senhora com o bebê. Da sua face caíra o mau e ela se tornou um azul preto e branco. A jovem mãe, aliviada, até aparentou ser ainda mais jovem, tamanho peso que fora tirado das linhas do seu rosto:

– Eu sempre soube quem a Senhora é. Acontece que eu não tenho opção.

Aquela Senhora, um pouco irritada com suas palavras, estava se deliciando com a menininha dos seus braços. Arrancou um grão verde de uva daquele parreira de verão com seus dedos finos e ofereceu à criança. Esta, olhando fixa em seus grandes olhos azuis, chupou o grão junto aos dedos da mulher. Sorria a valer. E Senhora diz:

– Ela ficará bem.

A jovem mãe acreditou naquelas palavras. Se a Senhora conseguia fazer um bebê comer uvas verdes, então tudo correria bem, sim. Deu as costas às duas e caminhou em direção do portão... sete... doze passos...

– Mãe!

Ela se virou e viu aquela moça. Linda. Cabelos castanhos e olhos amendoados. Um cachorro, preto e branco, começou a latir incessantemente do lado de fora do portão atrás da jovem mãe, que parecia muito calma:

– Quer conhecer seu pai, filha?

O moço estava lá fora, junto aquele cachorro preto e branco. Olhava orgulhoso para a moça, com os olhos tão apertados quanto o chapéu marrom entre suas mãos. De algum modo, todos pareciam ter a mesma idade. Cheiro de chuva já se aproximando sob o céu cinza e a Senhora estava ainda aonde a jovem mãe antes lhe dera as costas, portando uma expressão de trabalho bem feito... satisfação. A moça responde em suave tom:

– Meu pai?
– Sim. Quer conhecê-lo?

A filha puxou a mãe pelo braço e começou a nadar para perto da Senhora preto e branco e, baixinho, disse:

– Meu pai... hoje não.

As duas se olharam. O moço entrou no carro e, triste, foi. A Senhora desaparecera e só nesse momento a jovem mãe notou aqueles dois pontos, agora parando de sangrar, no pescoço da sua filha. Pensou “Minha única filha... mordida por uma Vampira!”.